Contra Recibos Verdes

Agosto 17, 2007

Manipulador de bonecos no Contra-Informação, 33 anos, 9 a recibo

Ricardo Moreno

 

Quem se diverte a ver o Contra-Informação, não sonha a tensão que ia na Mandala (empresa responsável pelo programa) em Fevereiro do ano passado. Pinto da Costa e José Alberto Carvalho, dois dos bonecos que Ricardo Moreno manipulava, também não suspeitavam. Tinham passado uns meses desde que dez manipuladores que ali trabalhavam há anos apresentaram uma carta reivindicativa dos seus direitos. «Os abusos estavam a ser por demais», garante Ricardo. Trabalhou para a Mandala nove anos, desde os 22, sempre a recibos verdes – sem segurança social paga, subsídio de doença, férias ou de Natal. Como ele, todos os colegas. Acrescia que naquela altura, havia muito trabalho extra, e eles eram obrigados a fazê-lo, sob pena de se ser «suspenso oito dias». «A empresa exigia disponibilidade total – de manhã e de tarde», sem contrapartidas. «Cheguei a ser descontado em 50% do ‘cachet’ diário por chegar 3 mn atrasado», denuncia.

O clima «de cortar à faca» que se instalou deu lugar à dispensa dos 8 trabalhadores. «Cheguei a ser convidado pela Mandala para criar uma empresa dentro da empresa, e trabalhar em regime de ‘outsourcing’», conta, naquele que é hoje um dos métodos mais utilizados pelos empregadores para disfarçar necessidades permanentes de pessoas cujos encargos sociais não querem assegurar.

Não é que Ricardo levasse uma vida má, a recibos. «Tinha casa alugada em Cascais, com vista para o mar…» Mas a preocupação com o futuro – «filhos, comprar casa…» – fê-lo tomar uma atitude. «Ali estava eu com 30 anos, uma vida porreira, mas e um dia, se houvesse um azar?», questiona. «As pessoas que estão a recibo verde vivem uma ilusão – são tratadas como burros com uma cenoura à frente…» Hoje, divide uma casa alugada em Carnide com a namorada. Dá aulas de guitarra numa escola em Mafra (é guitarrista da banda Além Mar, que se prepara para regressar ao activo). «Tive de me adaptar». Confessa que vive com ajudas: «Se não fosse a minha família, estava feito ao bife…»

Ele e os oito colegas puseram uma acção em tribunal, que ainda não chegou a um término. Nos meses seguintes à divulgação do assunto, em Novembro de 2005, o director da Mandala, a directora financeira e a produtora demitiram-se. Em Setembro, Ricardo tinha feito uma queixa à Inspecção-Geral de Trabalho, que lá foi dois meses mais tarde e concluiu que havia de facto situações irregulares. A IGT multou a Mandala em €7500. «€7500 pelo trabalho de 8 pessoas a trabalhar 10 anos em situação ilegal…!», revolta-se ele. «Isso é um valor irrisório para uma empresa daquela dimensão!» Assim, o crime compensa. Moreno vai mais longe: «A culpa deste país estar como está em relação aos recibos verdes é da inércia da IGT. Muita gente anda a sugar o futuro desta geração. Não nos dão possibilidade de assentar. Parece que tem de se pagar para se fazer o que se gosta. Portugal está uma nova colónia. Sinto-me um imigrante no meu país. Assim não vamos a lado nenhum.»

 

[aqui]

2 comentários »

  1. Essa foi a razão principal pela qual deixei Portugal em 1993, eu queria vida digna para mim e para os meus filhos. Enquanto a mentalidade dos gestores e dos governantes não mudar, Portugal só de férias.

    Comentar por Miguel — Agosto 18, 2007 @ 5:54 am

  2. O que é mais ridículo nisto tudo é que grassa a hipocrisia no meio jornalístico e dos grupos de media. Enquanto jornalista, já fui “obrigado” a escrever sobre a problemática dos recibos verdes em empresas privadas e públicas quando aquela onde eu trabalho tem pelo menos uma pessoa a recibo verde há quatro anos e uma mão cheia de estagiários a serem alarvemente explorados e mal pagos. Além de, obviamente, termos um director cheio de pruridos que censura essas práticas noutras empresas, mas não se coíbe de contratar operários em condições precárias para encher o jornal de palha. Sim, porque os séniores, os jornalistas a sério, saem caros e há que poupar senão lá se vai a posição privilegiada – e bem remunerada – deste “senhor director”. Só gostava que a IGT passasse por lá, para vê-lo a esconder a maralha no armário do papel higiénico.

    Comentar por Sempre — Agosto 23, 2007 @ 10:12 pm


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